Nkisi: proteção e cura

Home Home (MACGAFFEY, 1991; p.14, 30, 48) Nkisi: proteção e cura           O Candomblé é formado por diferentes nações e tradições, cada uma com raízes profundas em diferentes regiões e povos da África. Cada uma cultua suas próprias divindades: os Candomblés Nagô cultuam os Orixás, os Jejê os Voduns e os Kongo-Angola os Minkisi (plural de Nkisi). Segundo os ensinamentos de Tiganá Santana e Bunseki Fu-Kiau, Nkisi é remédio e feitiço, mas também os objetos materiais onde estão assentadas suas energias e mistérios. Essa palavra, utilizada em nosso Candomblé para nomear as divindades, tem raiz no verbo Kikongo (idioma dos Kongo) kinsa que significa “cuidar” (SANTANA, 2019, p.173).            Segundo o relato de Nsemi Ibaki, um habitante do Kongo, registrado pelos pesquisadores, John M.Jazen e Wyatt MacGaffey:  “Nkisi seria o nome da coisa utilizada para curar e obter saúde, sendo também um companheiro escolhido, para manter e preservar a vida da pessoa (…) O Nkisi tem vida, mas ela é diferente da vida das pessoas. Dessa forma, sua “carne” (Koma Nkisi) pode ser danificada, mas mesmo assim o Nkisi não terá sua vida extinta”.  Assim, podemos entender que um Nkisi é composto por uma “alma”, chamada de Mooyo, de um espírito protetor, um companheiro que cura e preserva nossas vidas. E um recipiente em que ela é assentada ou enraizada chamado de Koma Nkisi. O processo de assentamento ocorre por meio de um ritual que envolve uma seleção de medicinas e elementos chamados de Bilongo. Segundo Robert Farris Thompson, os recipientes de um Nkisi podem ser vários: folhas, conchas, trouxas, vasos de cerâmica, imagens de madeira, estatuetas e outros objetos (THOMPSON, 1983, p.121-122).           Existem Minkisi que são o corpo para os chamados Bisimbi, os espíritos da natureza ou de um determinado território local. Outros servem de corpo para espíritos ancestrais, denominados Bakulu. Muitos dos Minkisi utilizados para cura são espíritos da água, que, em sua maioria podem causar o transe ou a incorporação, como chamamos na diáspora. No Candomblé Kongo-Angola são os iniciados “rodantes” aqueles que entram em transe (MACGAFFEY, 1991, p.1-7).           Um exemplo de Nkisi cultuado tanto no Kongo, quanto em nosso Candomblé, seria Nkita Nsumbu. Carregando o nome do importante clã Nsumbu, originário do Kongo. Esse Nkisi, na África, é uma seleção de diversas medicinas em uma trouxa coberta de ráfia. É amarrado no pescoço de uma pessoa, ao lado de dois sinos de madeira, chamados de Kunda, que ativam suas medicinas e espantam o negativo. No Brasil a ráfia utilizada para cobrir esse Nkisi é a palha da costa, vista em suas roupas quando presente no corpo de seu iniciado. Para os Kongo, Nkita Nsumbu representa o “mundo em miniatura”, para nós se trata de uma divindade que também representa o mundo, especialmente a terra em que pisamos, tiramos nosso alimento, nossos remédios e curas tradicionais.  Nos dois lados do Atlântico, Nsumbu é responsável por punir aqueles de conduta imoral com doenças de pele, ao mesmo tempo que os justos e aqueles que o cultuam são protegidos de doenças (THOMPSON, 1983, p.121-123).  (MACGAFFEY, 1991, p.86)           Kiuá a todos nossos Minkisi, nossos companheiros de vida, aqueles que nos protegem, nos acompanham, nos cuidam e, principalmente, nos curam! Pembelê Tat’etu Nsumbu, o médico dos pobres, que o senhor espante o negativo e nos guarde das doenças! Nsumbu êNsumbu nanguêNsumbu ê Nsumbu nanguê Nsumbu sambu kwendaÊ Lemba dilêSu mayoki Nkita nfitaSu mayoki sambu kwenda 

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Cosmograma Bakongo ou como entender a vida

Home Home Cosmograma Bakongo ou como entender a vida Para nós do Candomblé Kongo-Angola nossa fé não se restringe aos momentos onde estamos no terreiro, exercendo nossas funções e festas dedicadas aos Minkisi (plural de Nkisi). Na verdade, nossas crenças atravessam todos os momentos de nossas vidas, desde quando acordamos até o momento em que vamos dormir. São modos de vida e de compreender o mundo em que vivemos. Estamos constantemente nos comunicando com nossos Minkisi e ancestrais, e eles compõem nossas vidas cotidianas, nos orientando em nossas decisões, se apresentando nos elementos da natureza, em nossos pensamentos, nossas virtudes e tradições, é isso que chamamos de Cosmologia. Os Kongo em África pensam da mesma forma, segundo Bunseki Fu-Kiau, “nada na vida diária da sociedade Kongo está fora de suas práticas cosmológicas” (SANTANA, 2019, p.34), e são essas práticas e visões que estruturam não só a religião, mas também o cotidiano desses povos Bantu.  Para entendermos como os Kongo e, consequentemente, nós na diáspora entendemos o mundo e nossa fé, é necessário compreendermos o Cosmograma Bakongo, a transcrição em imagem e linguagem gráfica de sua forma de enxergar o mundo: O Cosmograma é um círculo atravessado por duas linhas, uma vertical, e outra horizontal, formando em seu centro uma encruzilhada, denominada yowa. Nas extremidades das linhas temos circunferências menores, que representam o sol e seu movimento ao redor da terra, iniciando ao leste e se pondo no oeste. Ao se por, morre e submerge no mar, porém, continua em seu movimento circular até renascer no dia seguinte (THOMPSON, 1983, p.112-114).   Este movimento circular do sol, também representa a vida humana em suas quatro etapas. Cada um de nós é um sol, nascemos em Kala, atingimos nosso auge da vida física ao meio-dia em Tukula, morremos no por do sol e atravessamos para o mundo dos mortos em Luvemba, atingimos o auge de nosso espiritual em Musoni, até chegarmos a nosso renascimento em Kala, novamente. Assim, a linha horizontal, Kalunga, não é apenas o mar em que o sol mergulha, mas a fronteira entre o mundo dos vivos, Ku Nseke, e o mundo dos mortos, Ku Mpemba. Enquanto a linha vertical representa o caminho do poder, no mundo dos vivos e dos mortos, Tukula sendo onde estão os líderes de nossas comunidades e Musoni os ancestrais que cultuamos (THOMPSON, 1983, p.112-114).   Como podemos perceber, a linha vertical liga os líderes da comunidade aos ancestrais, isso porque os mais poderosos e sábios do mundo físico precisam estar sempre em contato com os mais poderosos e sábios do mundo espiritual, um não pode existir sem o outro. Nossos ancestrais são aqueles que trazem orientação para as lideranças, cuidam de nossas comunidades e guiam nossas vidas cotidianamente. Cada um de nós é um sol e é um dever de toda comunidade junto aos ancestrais e nosso objetivo individual garantir que conseguiremos chegar ao auge de nossas vidas, ao meio-dia.    Kiuá a todos os ancestrais que nos guiam diariamente, aweto àqueles que nos orientam por toda a nossa vida e a todo momento, que nos façam grandes e que cheguemos ao nosso auge!

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Base espiritual Bantu e o Candomblé Kongo-Angola

Home Home Base espiritual Bantu e o Candomblé Kongo-Angola           Segundo o banco de dados acadêmico do tráfico de escravizados SlaveVoyages, cerca de 3.192.969 de africanos escravizados desembarcam no Brasil, destes, cerca de 1.831.842 vieram da África Centro-Ocidental. Assim, 57,37% do número total vieram desta região, sendo majoritária na escravidão brasileira e tendo um grande impacto na formação social e cultural de nosso país. É nessa região que se localizam diversos povos que fazem parte do que pesquisadores europeus, a partir da década de 1860, denominariam como tronco linguístico Bantu, palavra que significa “homens” ou “povo” na grande maioria desses idiomas (SLENES, 1992, p.50-51). Mesmo que se trate de uma denominação externa, imposta por pesquisadores europeus colonialistas, muitas vezes rejeitada por certos povos da região, o interessante é perceber que essa semelhança entre línguas também estava presente na cultura.           Apesar disso, não podemos cometer o erro de acreditar que todos os povos Bantu são iguais ou que se trata de um mesmo povo. Como é de se esperar de sociedades que se localizam de uma costa da África até a outra, existem mais de 400 grupos étnicos que podem ser considerados Bantu, cada um com idiomas, culturas e sociedades diferentes. Ainda assim, podemos encontrar uma base cultural e religiosa em comum, como uma raíz central por onde florescem muitos galhos distintos (CRAEMER, VANSINA, FOX, 1976, p.458-475). Essa raíz religiosa se estrutura por meio de uma “pirâmide vital”, um mundo espiritual composto por diferentes elementos, cuja força espiritual é decrescente da ponta até a base (ALTUNA, 1985, p.58-61):       O Deus Supremo reina sobre o universo, mas recebe diferentes nomes dependendo do povo em questão (Kalunga, Nzambi, Lessa, Mvidie, etc). Abaixo dele se encontram os arqui patriarcas, os fundadores dos primeiros clãs e grupos humanos, os ancestrais primordiais. Embaixo deles, estão os espíritos da natureza, ligados a regiões geográficas específicas, que habitam lagos, rios, pedras, ventos e florestas, com atuação sobre os fenômenos naturais. Então chegamos aos ancestrais mais recentes, os “grandes mortos”, que atuaram em prol da prosperidade da comunidade, tiveram papéis relevantes em sua história e por isso são lembrados e cultuados mesmo após sua morte. Finalmente temos os antepassados, os mortos mais próximos, também cultuados caso tivessem uma boa conduta em vida (DAIBERT, 2015, p.11-14).           Cada um deles, inclusive nós, recebe uma partícula da energia vital do Deus Supremo, em maior quantidade na medida que se aproximam da ponta, sendo os ancestrais e antepassados os intermediários diretos entre a comunidade e a divindade suprema. Para os povos Bantu uma boa relação com esse mundo espiritual é essencial para manter a prosperidade da comunidade e caso haja algum desequilíbrio, certamente ocorrem desastres. Para nos mantermos fortalecidos precisamos cuidar de nossas relações com todos os elementos e suas energias, para que essas não nos enfraqueçam em troca. Como uma teia de aranha, todos estamos conectados e não podemos desregular uma relação sem que o resto também seja desregulado. E quando isso ocorre, é necessário a intervenção de um sacerdote (DAIBERT, 2015, p.14-15).            O Candomblé Kongo-Angola é muito influenciado por essa base cultural e religiosa Bantu, e isso está evidente em nosso culto a Divindade Suprema Nzambi, em nossos arqui patriarcas e espíritos da natureza na forma dos Minkisi (plural de Nkisi), nos ancestrais e antepassados, que são nossas entidades. Para nós, manter uma boa relação com todos eles e com nossa comunidade também é essencial para nossa prosperidade e felicidade. A prática de nosso culto e nossa conduta moral são os grandes responsáveis por manter nossa força vital. Quando ocorre algum desequilíbrio em nossas vidas, são nossos sacerdotes que nos orientam e nos colocam de pé. E essa teia que nos mantém unidos e constantemente trocando energia e vida.   

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